• Daniel Alves

Vantagens da confiança em tempos de home office

Nada do que foi será, do jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará.”


Estas duas frases que compõe a letra da música “Como uma onda no mar” do cantor e compositor Lulu Santos, nunca fez tanto sentido como agora. O ritmo suave e romântico da melodia incentiva a olhar para frente, seguir a vida, mas saindo da atmosfera musical e fincando os pés na realidade moldada pelo novo coronavírus, estamos sendo confrontados por receios e medos que estão influenciando o modo de lidar com o cotidiano no aspecto pessoal e profissional – se é que podemos separá-los.


As pessoas estão lidando com inseguranças em um ambiente volátil maximizado pelos efeitos devastadores dessa pandemia. Se observarmos a evolução das organizações desde a era industrial onde o cargo é poder, passando pela era da informação onde o conhecimento é poder até o momento atual da era ágil onde ação é poder, as empresas mais lentas para reagir estão sofrendo mais. A transformação digital também afeta as empresas mais tradicionais não apenas nos produtos e serviços, mas também nos modelos de negócio e seus processos, provocando confusão por conta das muitas oportunidades e até frustração pelo gap das pessoas em acompanhar as mudanças necessárias.


O novo coronavírus acelera a necessidade de quebra de paradigmas. Nesse contexto, líderes devem assumir a missão essencial de ser um farol que oriente a navegação, auxiliando as pessoas a enfrentar as desconfortáveis dúvidas do futuro incerto com uma visão positiva e coragem de admitir o que não sabem. Esse contexto é muito bem traduzido na afirmação do sociólogo alemão Niklas Luhman:


Confiança é uma maneira de lidarmos com a complexidade de uma sociedade crescentemente moderna”.


Construir relações de confiança é um dos desafios mais críticos da nossa sociedade, principalmente em momentos de crise no qual as pessoas estão sedentas por referências que transmitam segurança. Não importa se é o líder de uma nação, de uma organização sem fins lucrativos ou privada, o fato é que as pessoas precisam saber que podem confiar umas nas outras.


Existe uma ironia nisso porque geralmente ignoramos o fato de que a confiança não é como o ar que respiramos. Ela não existe ao acaso. Há uma grande mentira no jargão que afirma que tal pessoa ou instituição é ou não é confiável. A confiança é fruto da fala, do gesto, da intenção e da realização. A confiança pode ser construída, cultivada e se tornar um dos principais ativos de uma equipe e de uma organização.


Ajustando o foco para o agora encontramos muitos profissionais trabalhando em home office com a expectativa de que apenas parte dessas pessoas voltarão para o espaço convencional de trabalho. Enquanto outras permanecerão em seus lares adaptados para conciliar as rotinas caseiras com as demandas profissionais, as perguntas que não querem calar são: Como manter a produtividade? Como sustentar o engajamento? Como saber se os colaboradores estão administrando adequadamente seu tempo?


Embora não represente a garantia de respostas positivas para estas perguntas, a confiança é o alicerce. Sem credibilidade não há segurança, não há produtividade. Onde não há confiança, há questionamento. Onde há dúvidas, há perda de agilidade organizacional. Em momentos de turbulência, a confiança é um ativo essencial para administrar uma equipe, uma empresa e sua relação com o mercado. É a confiança que cria coesão entre as pessoas, mas lembre-se: toda essa cadeia começa na qualidade da relação de confiança entre o líder e seu time.


VANTAGENS DA CONFIANÇA PARA UMA ORGANIZAÇÃO.


Marco Tulio Zanini, professor na Fundação Dom Cabral, doutor em gestão empresarial e autor de vários trabalhos sobre o tema confiança aplicada às empresas, apresenta cinco grandes vantagens em organizações que apresentam relações sólidas de confiança:

  1. Flexibilidade organizacional e capacidade de adaptação;

  2. Inovação e criatividade;

  3. Alinhamento de interesses individuais e organizacionais;

  4. Qualidade superior para serviços especializados;

  5. Sustentabilidade do negócio.

Ao contrário do autor acima que apresenta a confiança como um ativo intangível, Stephen Covey defende que a confiança é tangível, real e possível de ser quantificada representando mais uma vantagem valiosa a ser considerada. Em seu consagrado livro “A velocidade da confiançahttp://www.speedoftrust.com , ele faz a seguinte afirmação:


“A confiança sempre produz dois resultados – a velocidade e o custo. Quando a confiança decresce, a velocidade também decresce e os custos aumentam. Quando a confiança cresce, a velocidade também sobe e os custos diminuem.”


A confiança é influenciada por variáveis sociais e características da indústria ou setor onde a organização está inserida, bem como pela combinação de subculturas organizacionais e drivers de gestão específicos como processos, pessoas, resultados, inovação, produto e mercado. Considerando que muitas pessoas estão, e continuarão trabalhando remotamente em seus home offices, a relação interpessoal entre o líder e as pessoas que formam o time de trabalho pode ficar fragilizada, pois há uma forte relação entre as relações de confiança e a eficiência dessas relações – independentemente da estrutura hierárquica. O que é inegável é que a confiança pode e deve ser construída e gerida.


GERENCIANDO A CONFIANÇA


Se a confiança, segundo Stephen Covey, pode ser quantificada, ela pode ser gerenciada trabalhando quatro dimensões da credibilidade:

  • Integridade: você é verdadeiro e coerente com o que diz e faz?

  • Intenção: você demonstra interesse genuíno pelo outro e deixa claro o que está por trás das suas decisões e orientações?

  • Capacidade: sua relevância está relacionada as habilidades, conhecimentos e experiência?

  • Resultados: há consistência nas suas realizações e na maneira como se comporta?

Duas dessas quatro dimensões, o intento e a integridade, sustentam o caráter. A capacidade e os resultados são outras duas dimensões que identificam a competência. É muito simples. Uma pessoa é confiável se possuir bom caráter e apresentar resultados consistentes. Se uma dessas duas vertentes forem comprometidas, a confiança será abalada.


A confiança gera conexão e em tempos de home office, esse ativo passou a valer mais. Embora muitas pessoas, erroneamente afirmem que confiar nas pessoas é demasiadamente arriscado, não confiar nas pessoas representa um risco muito maior. Lembre-se que você pode mudar a qualidade das suas relações criando consistência em trabalhar quatro etapas:

  1. Identifique os comportamentos que afetam a relação com as outras pessoas nessas quatro dimensões.

  2. Faça uma auto avaliação e também peça para cada pessoa do seu time (individualmente) avaliar você.

  3. Identifique os comportamentos e as atitudes que devem ser trabalhados para aumentar ou restaurar sua confiabilidade.

  4. Estabeleça a confiança com uma pessoa de cada vez. Tratar com sinceridade e com uma postura aberta para ouvir e evoluir, significa plantar sementes para colher relacionamentos sólidos a longo prazo.

ASSUMA A MISSÃO DE SER UM LÍDER NO QUAL O TIME CONFIA.


Para concluir este artigo, reproduzo as palavras de Richard Barret, fundador do Barrett Values Centre https://www.valuescentre.com e um dos principais pensadores nos temas de liderança e evolução dos valores humanos nos negócios e na sociedade:


“Para criar uma equipe forte, é preciso que haja um alto nível de confiança. Ela é a cola que mantém as pessoas unidas e o lubrificante que permite que a energia e a paixão fluam. A confiança aumenta a velocidade com que o time é capaz de cumprir tarefas e remove a burocracia da comunicação.”


Mais importante do que ter as respostas certas é enfrentar os desafios com a convicção de que está sendo feito o melhor, cultivando a paciência, a resiliência e a disposição para encontrar soluções que ainda precisam ser formatadas. O líder confiável não luta para si, mas por uma causa coletiva e um bem comum. As pessoas seguem o líder capaz de despertar no time um forte sentido de significado alicerçado por relações de alta confiança.


Gerson Ferreira

Co-fundador da MOD8 | Estrategista Cultural & Branding

Com sólida vivência nas áreas de comunicação social, marketing e branding, possui como foco de estudo o comportamento humano. Como gestor de ativos intangíveis e estrategista cultural acredita no poder da tecnologia das ideias como a aplicação da inteligência humana para questionar padrões e co-criar conceitos ao identificar oportunidades que possibilitem gerar benefícios disruptivos.