• Daniel Alves

O líder como principal canal de comunicação

Se você espera encontrar neste texto dicas de um especialista em liderança, preciso alertá-lo que não sou esta pessoa. Existem milhares de livros escritos por autores renomados sobre o tema. Minha contribuição com este conteúdo é ajudar profissionais que ocupam um cargo de liderança, mas sentem dificuldade para comunicar-se adequadamente com as pessoas. Principalmente neste momento onde boa parte - ou todos - da sua equipe, estão trabalhando em casa.


Talvez você seja um profissional com excelentes competências técnicas em sua área de atuação que o levaram a assumir uma posição de liderança, mas não foi preparado para lidar com pessoas. Muito menos como fazê-lo em meio a uma pandemia. Ou talvez você trabalhe em uma empresa mais tradicional na qual o bom funcionário (o que funciona) simplesmente obedece e você, querendo ou não, consciente ou não, faz parte dessa cultura.


Este texto é para você que se identifica com o parágrafo acima e ao mesmo tempo vive a responsabilidade intransferível de engajar pessoas. Para esse fim, gostaria de compartilhar algumas dicas de comunicação em tempos de trabalho remoto e muitas incertezas.


O primeiro ponto é ter consciência que o que você pensa sobre o seu trabalho e suas relações profissionais afetam a maneira como você se comunica. Qual nível de importância você dá à sua missão de comunicar no ato de liderar? A comunicação é parte tão importante do seu trabalho quanto os resultados que você precisa alcançar e, diga-se de passagem, por meio da sua equipe. Comunicar-se bem com as pessoas com quem trabalha, além de fazê-lo sentir-se melhor, vai cultivar relações mais sinceras, íntegras e consequentemente, confiáveis.


No contexto atual, é necessário evitar tratar a comunicação com sua equipe no modo predeterminado, ou seja, desconsiderando a nova realidade ao utilizar a mesma maneira de antes para responder as reações e consequências que afetam a execução do trabalho. Se você está preso num modo específico de se comportar, pode estar insensível a necessidade de mudar o seu jeito de interagir com seu time e, principalmente, com cada pessoa que o compõe.


Como em todas as crises que afetam a sociedade no aspecto econômico, financeiro e, nesse caso, saúde, a incerteza convive com as pessoas trazendo junto o medo, a ansiedade e a preocupação. São muitas as pessoas que estão surtando por não saber se estará empregada, se terá que sobreviver com metade do salário, acomodar em sua pequena casa o espaço e a estrutura necessária para trabalhar, ou se a empresa vai ser impactada a ponto de quebrar.


Se você lidera um time, saiba que está vivendo um dos testes mais desafiadores da sua vida. Como anular os efeitos do medo e das respostas inexistentes para perguntas que não querem calar? Como manter cada membro do time comprometido, produtivo e otimista? O primeiro passo é estabelecer uma relação de confiança por meio da comunicação transparente na qual, mesmo sem dispor de todas as respostas, prevalece a abertura e a sinceridade sobre o que sabe. Se você for bem sucedido passe para o segundo desafio que é transgredir de líder operador racional e técnico para líder transformador de variáveis que influenciam as emoções.


Não é a toa que a mensagem ao decolar do avião é para que você vista sua máscara de oxigênio e depois ajude a pessoa ao lado. Em momentos de incertezas as pessoas recorrem ao líder. Esteja preparado para orientar. O líder deve ter a capacidade de compreender o conjunto das partes de modo orgânico criando uma unidade de trabalho de constante consciência da realidade e do papel de cada um. É necessário examinar o conjunto de fatores de natureza emocional que motivam o comportamento humano, especialmente os que surgem como reação inconsciente aos estímulos do ambiente. Se você não sabe como fazer isso, pesquise, estude, pergunte ou repense sua função de líder.


Para ajudá-lo nessa missão, aqui estão algumas recomendações para a prática de uma comunicação mais assertiva em tempos de incertezas.


RESPEITE O DIREITO DO OUTRO.


Cada pessoa que compõe seu time possui o direito de ouvir e ser ouvido sobre tudo que afeta o desempenho do grupo e da empresa. Se você acredita que o indivíduo tem o dever de cumprir as tarefas estabelecidas, reconheça que você tem o dever de mantê-lo informado a respeito do contexto no qual está inserido. Tente usar a mesma lente que eles para ver a situação do ponto de vista do outro. Deixe claro o que a empresa espera das pessoas, mas esteja aberto a compreender as dificuldades que elas enfrentam e assuma seu papel de farol capaz de orientar a trajetória que está e pode ficar mais turbulenta.


PRATIQUE A EMPATIA.


O líder deve ser capaz de compreender os estados psicológicos dos outros. Ser empático não é colocar-se no lugar do outro e sim sentir o que o outro sente. Ah, mas não sei fazer isso, não tenho tempo, não sou psicólogo… deixe as justificativas de lado e compreenda o desafio que está diante de você. Não estou dizendo que você precisa gerenciar as emoções do outros, mas nada substitui a tarefa do líder de articular um senso de paciência e esperança em situações de incertezas e medos. Compreenda que a paciência gera a experiência e com ela a certeza de que tudo é passível de superação. Seja empático e acima de tudo otimista, mesmo quando o resultado está fora do seu controle.


IDENTIFIQUE A CAUSA DO PROBLEMA.


Compreenda a origem da situação a qual a pessoa que faz parte da sua equipe está vivenciando. A maioria das pessoas que estão trabalhando em casa não possuem condições adequadas para realizar suas tarefas. Não considere que trabalhar em casa é a mesma coisa que se estivesse trabalhando no escritório. Barulho no vizinho, crianças chamando a atenção, internet fraca, computador ultrapassado, cadeira e mesa inapropriados e o fato da maioria não possuir um ambiente físico independente para trabalhar em casa, podem ser algumas das possíveis causas da baixa produtividade por exemplo.


NÃO ADIE OU EVITE TOCAR NO ASSUNTO.


Esteja sempre preparado para falar sobre os problemas. Evitar tocar no assunto é pior do que falar abertamente. A ausência de orientações e informações do líder dará origem aos boatos que corroem as relações de confiança. Mesmo que você não saiba para onde o barco está indo e o que está por vir, não tenha receio de admitir que não sabe. Afirme que assim que souber ou receber orientações sobre a questão, estas serão repassadas para conhecimento de todos. Lembre-se que nenhum de nós sabe exatamente como será o futuro breve. Não considere opiniões como fatos. Suposições são apenas isso - suposições. Vire as costas para as especulações. Trabalhe com o que é real.


CONSTRUA VÍNCULOS.


Para que a comunicação ideal aconteça é preciso construir uma ligação moral com as pessoas. Ao construir vínculos você estará abrindo e sustentando um canal de comunicação essencial para superar adversidades. Aproxime-se, conheça cada um, deixe as mensagens escritas de lado nos momentos críticos.


Se não está sendo possível conversar pessoalmente, entre em uma sala virtual com as câmeras ligadas, observe e deixe ser observado. Os olhos, as expressões faciais, o tom de voz complementam as palavras que sozinhas podem despertar emoções inadequadas - mesmo que não seja a intensão. Lembre-se que comunicação não é o que se fala, mas o que o outro entende.


PARA SER EFICAZ VOCÊ PRECISA ORGANIZAR UM PLANO.


É necessário saber o que tem que ser feito para manter o time engajado mesmo que não existam certezas dos próximos passos. Defina “como" e "quando" você estará se comunicando. Se a empresa está enfrentando dificuldades, não espere demais. Quanto mais cedo as pessoas forem envolvidas melhor. Informar a situação não é suficiente. É fundamental estabelecer a frequência das atualizações sobre as mudanças que vem pela frente e os resultados e ajustes das que já ocorreram Existem ferramentas para a comunicação interna que podem ser muito eficazes, mas sugiro que você não abra mão de estabelecer um cronograma para conversar com o time coletiva e individualmente, mesmo que a empresa já possua um canal onde os colaboradores interajam para buscar respostas. Lembre-se que o líder é o elo de confiança com o todo, por isso garanta que as dúvidas, preocupações e inseguranças sejam tratadas com cuidado para transmitir tranquilidade e resiliência.


Para concluir, gostaria de frisar que não tenho a ousadia de esgotar o assunto, mas ressalto a importância de ser coerente consigo mesmo na uniformidade do oficio de liderar. O principal objetivo não é ser bem-sucedido e admirado. Isso é bom e satisfaz o ego, mas é pouco, muito pouco. Um líder deve desenvolver a melhor versão de si mesmo honrando sua vocação e também desenvolvendo competências complementares para estar a serviço dos que necessitam de direção para que cumpram seus dons e funções com o mínimo de medo para encarar a vida como uma jornada de descobertas que vai além das planilhas, objetivos e metas.

Gerson Ferreira

Co-fundador da MODO8 | Estrategista Cultural & Branding


Dedicado a evoluir a capacidade competitiva das organizações inspirando e acelerando as transformações que integram estratégias de negócio, cultura organizacional, significado da marca e o contexto digital. Sempre tendo como base a compreensão do comportamento humano.